terça-feira, 19 de abril de 2011

Onaldo Queiroga - Esquinas Da Vida - O Cronista E Sua Prece - Apresentação - Final

Onaldo Queiroga pratica a sua literatura com esse espírito - em estado de fruição-quase-gozo das coisas artisticamente reveladas. Testemunho esse seu transitar fagueiro entre a angústia da bipolaridade, localizada à sua frente, e a admiração intelectual pela civilização moche, do outro lado da cordilheira dos Andes, encarapitado nos cumes nevados do Peru.

Isso enche a vista do seu leitor. Sem expressões rebuscadas, sem ares professorais, o texto simples acaba sempre encontrando o seu leito reflexivo, como o regato de Heráclito em sua panta rei. Tudo flui na crônica de Onaldo Queiroga. Tudo adquire graça e naturalidade pela própria força do bem maior que ele traduz com maestria:

"O Senhor nos concedeu a santa natura com sua abundância e escassez; sua serenidade e fúria; sua imperiosa, simples, bela e divina face. Permitiu, por exemplo, a alternância das marés. A alta, com suas ondas gigantes, impetuosas, correndo furiosamente em direção à areia da praia, nocauteando-a onda após onda, num gritar às vezes bravio, mas ao mesmo instante soando revolta, desespero, insatisfação e até clamando por socorro. Mas o mesmo mar, na hora da maré baixa, através da suavidade do vai-e-vem de suas pequeninas e imperceptíveis ondas, com suas águas calmas, piscinais, tranquilas, românticas e reflexivas, também é capaz de nos transmitir o divino silêncio da paz, revigorando as nossas energias para o enfrentamento da lida diária".

Essa reverência ante a natureza, na crônica de Onaldo Queiroga, só não é maior do que a veneração pela poética nordestina. A pátria lírica de Onaldo estende-se de Luiz Lua Gonzaga a Joubert de Carvalho. Na verdade, sob este aspecto, a sua escritura não se limita a uma simples agrimensura da musicografia que sobrevive na obra dos grandes nomes da nossa cultura.

Muito mais do que a própria abordagem criteriosa do estudioso que perquire com rigor sócio-antropológico as raízes da nordestinidade, o que efetivamente pervaga toda esta obra de Onaldo Queiroga é a sua profunda sensibilidade de poeta em estado de pleno alumbramento diane da obra de outros poetas.

Este, sim, me parece o traço mais significativo deste livro de Onaldo Queiroga. Não conheço escolha melhor do que esta para se investir do exercício pleno do mundo.

Luiz Augusto Crispim
escritor, poeta, cronista e jornalista

Esquina da Vida
Escritor Onaldo Queiroga.
Páginas 15 e 16.

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