quarta-feira, 27 de abril de 2011

Onélia Queiroga - Espíritos Antagônicos

Há pessoas que se ajustam a todas as intempéries da vida. É do feitio delas mesmas a aceitação do sol, da chuva, do calor do dia, do frio da noite Raramente ficam mal-humoradas e, se ficam, não deixam transparecer para não contrariar ninguém. Essas pessoas vivem com um sorriso nos lábios, passando para os que as conhecem um astral bem positivo.

Do outro lado, há as pessoas resmungonas, as eternas insatisfeitas. Por mais que a vida as agracie com benesses, não vêem tudo o que de bom já conseguiram ao longo de sua caminhada. Buscam, na perfeição das coisas, a mínima falha, os mínimos defeitos. Aliás, só enxergam estes descobrindo-os até onde o mais perspicaz dos observadores não os encontra.

As pessoas pessimistas lamentam-se constantemente da sorte. Acham que Deus não olha para elas, que são menosprezadas. O pior é que não se contentam em lamentar somente a própria desventura, que às vezes nem desventura o é. Mais do que isso, procuram destilar nos que têm natureza feliz o veneno da lamentação.

As lamuriosas estão sempre criando entraves à vida dos que as cercam. As suas visitas, as suas conversas, as suas opiniões enervam as pessoas com as quais convivem. Intrometem-se onde não devem, opinam quando devem ficar caladas, decidem sem ter competência para tal.

Falam alto e gesticulam demais para externar os seus pensamentos. Acham-se o máximo em termos de cultura popular, de conhecimentos da história da comunidade local. Muitas vezes, para enfatizar a notícia que transmitem, trocam os fonemas de alguns vocábulos, pondo o i onde é e, o u onde era o, surgindo, assim das suas expressões neologismos os mais inusitados, provocando entre os ouvintes imitações futuras.

Essas pessoas geralmente são sadias, mas algumas são hipocondríacas. Cumulam-se de mazelas, como se a morte estivesse próxima e o velório fosse no dia seguinte: na segunda-feira, são atacadas por forte gripe; na terça, por alergia em todos os poros; na quarta, por grande dor de dente naquele molar do canal; na quinta, por dor de cabeça a explodir-lhe o cérebro; na sexta, por disenteria; no sábado, por bico de papagaio. No domingo, à falta de outros achaques, levantam-se faceiras para irem à missa e ao shopping. Do rosário de doenças, contudo, sequela nenhuma demonstram no seu semblante.

Gostam ainda de visitar os familiares. Aparecem vestidas com esmero. Falam por todos os presentes, transmitindo notícias do seu inesgotável repertório. Chegam com toda saúde, mas, em compensação, matam uns poucos com as doenças que lhes põem: a cunhada, coitada, está com vela na mão; a filha mais velha internara-se com febre repentina; a netinha caíra na escola. Uma tragédia! A testa costurada com cinco pontos, sem falar na enorme cicatriz que a marcará para o resto da vida. Ao retornar à residência, deixava esfacelada até a mais esperançosa das criaturas.

As pessimistas não gostam de viajar, nem admitem que as pessoas a elas ligadas viagem. Por isso, indignam-se quando recebem comunicado de parentes que decidem fazer excursão. Ligam imediatamente e perguntam:

- Vocês vão mesmo viajar, amanhã?

- Sim. Desejam alguma encomenda?

- Não, não é isso. Ligamos, porque estamos aflitas.

- O que houve? Alguma novidade?

- Não! Vocês assistiram ao jornal das doze?

- Não tivemos tempo. Há dias, arrumamos as malas.

Ah! Se vocês tivessem assistido, desmanchariam a viagem!

- Por quê?

- Não viram a enchente no Sul? Cidades inteiras alagadas, estradas danificadas, tráfego interrompido, com filas quilométricas de carro pesados, automóveis... Um horror!

- Quando chegarmos ao Sul, tudo estará normalizado.

- É melhor não arriscarem. Boa romaria faz quem na sua casa está em paz. Para um provérbio, nada melhor que outro provérbio: - Fé em Deus e pé na tábua, respondem as otimistas.

As negativas, se não conseguirem demover os outros de viajar, entristecem-se. Fazem tudo para frustrar os planos turísticos das pessoas. Por isso, os familiares e amigos passaram a adotar tática diferente: programam-se em silêncio e, quando a notícia se espalha, já estão em plena excursão. Aquelas resmungam por vários dias, amaldiçoam os viandantes, por tamanha falta de consideração.

As pessoas com essas características são antagônicas por natureza: quando uns revelam gostar do branco, elas elogiam o preto; se preferem a manhã para fazer compras, elas dizem ter a tardinha clima mais agradável para sair; se gostam dos doces, os seus encômios vão para os salgados; se têm outras amizades e não somente as delas, então, reagem ferozmente. As antagônicas criticam nos outros a falta de cuidados com a estética corporal, embora sejam corpulentas por disposição orgânica e por convicção. Alimentam-se bem. Não têm complexo do seu corpanzil, porém acham gordo quem não o é. Admiram-se da magreza dos convalescentes e dos que preferem ter alguns quilinhos a mais.

Satisfazem-se, inteiramente, em jogar esta observação nas faces dos conterrâneos que, há tempo não vêem: - Como vocês estão acabados!

Ou dizem, com a maior simplicidade, aos doentes que visitam: - Vocês estão tão pálidos!

É-lhes prazeroso anuviar a alegria e a felicidade das pessoas. Vestido de baile, para elas, não passa de roupa de mandapulão; quando vêem alguém usando pulseiras de perendengues de ouro, dizem que encontram similares mais baratos nas imitações; moça bonita é chata, antipática; moça feia deve ficar no caritó, por sua própria feiúra. Sempre têm um toque pessoal para as coisas que observam e analisam. Fazem tudo isso, por costume, por gosto mesmo de serem antagônicas, nem que sejam delas mesmas.

Onélia Setúbal Rocha de Queiroga.

Escritora e Professora de Ciências Jurídicas
da Faculdade de Direito da UFPB.
Colunista do Caderno 2, página Cultura,
do jornal “ Correio da Paraíba”.

Histórias Orbícolas.
Páginas 50, 51, 52, 53 e 54.

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