um conto - uma crônica
Tanque Cheio
Depois daquela, o garçom se mandou ligeirinho. Saiu sem notar que o resto da mesa se divertia com a cena e diálogo dele com Chico, que dali em diante amarrou o bode e só desamarrou na hora de ir embora.
De qualquer sorte, tudo terminou em paz, a comida estava ótima para a quase unanimidade dos comensais e todos pegaram seus carros para voltar para casa, em Intermares, onde moram todos.
Chico avisou que se desgarraria do comboio porque precisava ir até um posto de gasolina ali perto para abastecer o carro e depois a barriga, pois na sequência passaria numa lanchonete. Almoçaria - em paz, enfim - um sanduíche.
No posto, que é o preferido dele e fica dentro de um supermercado que tem uma lanchonete razoável, Chico pegou fila imensa, culpa dessas 'promoções' que baixam o preço do litro em dois ou três centavos.
Demora e espera lhe acentuaram a irritabilidade. Mas, pelo menos, deu-lhe tempo de pensar num jeito de se livrar do discurso orientado para induzir o cliente a comprar a gasolina aditivada e mais cara.
É um papo decorado que geralmente Chico ouve em silêncio, depois olha bem no olho do bombeiro e anuncia com voz firme e forte:
- Comum! Viu? Comum!
Dessa vez, quando chegou a sua vez, Chico optou por simular conversa ao celular. Mas aí, quando pediu um instante ao 'interlocutor' apenas para dizer 'Comum!' ao frentista, ouviu um peremptório "Desligue o celular!".
Detalhe que esqueci: Chico é engenheiro elétrico. Sabe mais do que ninguém que celular ligado não é capaz de explodir posto de gasolina algum.
De qualquer sorte, ele desligou e guardou o celular no bolso da camisa, sem dizer palavra, para espanto da esposa que estava ao seu lado. E o frentista, satisfeito por se ver prontamente obedecido, foi cuidar de encher o tanque.
Concluído o abastecimento, o rapaz entregou aquele cartão inteligente que registra a conta, mas o motorista não deu a partida e ficou esperando.
- Algum problema, Senhor? - indagou o frentista.
- Não, nenhum. Só estou esperando o amigo empurrar o carro - explicou Chico.
- Como assim?O carro morreu, foi? - estranhou o frentista.
- Não, amigo, é que se ligar um celular aqui é perigoso, imagine, então, ligar um carro!
Rubens Nóbrega
Jornalista
Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 28/03/2010.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Rubens Nóbrega - Esse Chico... - Final
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário