terça-feira, 19 de abril de 2011

Rubens Nóbrega - Esse Chico...

um conto - uma crônica

Chico Roberto é mesmo uma figura. Naturalmente impaciente e irascível, no dia em que perde o restinho de paciência, sai de perto! Mas, se ficar, vai ter a chance de acompanhar e testemunhar episódios de refinado mau humor.

Já contei aqui um ou dois causos de Chico Roberto, versão moderna e estilizada de Seu Lunga do Juazeiro, de Seu Manduri de Patos ou do inesquecível Saraiva que outro Chico dos melhores, o Millani, fazia no tempo em que faziam humor na tevê.

Só não contei mais histórias de Chico Roberto porque vez em quando o homem desaparece, passa meses fora, pelo Brasil ou no exterior, a trabalho ou fazendo turismo.

O bom é que ele sempre volta à Paraíba e quando está em João Pessoa toma um cafezinho com a turma lá no Tambiá. É a chance que a gente tem de atualizar as aventuras e proezas do nosso herói.

Semana passada, ele deu o ar da graça no cafezinho e confirmou uma boa das suas que nos fora contada antes por seu cunhado, o escritor-pesquisador e estrategista político Waldir Porfírio.

Aconteceu em um desses dias em que Chico amanheceu daquele jeito, apesar de ser domingo, dia de sair com a patroa, parentes e/ou amigos para comer fora.

A pedida, dessa vez, foi uma concorrida churrascaria do Bessa, em João Pessoa.

A casa serve um rodízio de muita boa qualidade, um perigo para quem come demais da conta. Há que ter cuidado, pois do contrário sai empanzinado, como se tivesse comido o boi inteiro, com chifre e tudo.

Isso acontece, em boa parte, porque dá pena ou dor na consciência ver o tanto de comida que você pode desperdiçar, toda ela despejada no prato à sua frente por aquele enxame de garçons que cerca sua mesa.

Um lugar assim não seria, como não foi, uma boa escolha para Chico Roberto. Explico: apesar dos seus rompantes, ele é um cara de fino trato na hora das refeições.

Pra começar, gosta de comer à la Houaiss, mastigando bem mastigadinho tudo o que bota na boca. Tanto que só deglute os pedaços, fatias, gomos, lascas ou tiras quando todo o 'material' vira aquela papinha da mais fácil digestão.

Daí por que naquela churrascaria o nosso Chico começou cedo a invocar com a insistência dos garçons em empanturrá-lo de carne, pão de alho, frango assim, franco assado, interrompendo-o toda vez que ele tentava levar o garfo à boca.

- Vai uma maminha aí, Doutor? - perguntava um, já fatiando a peça enfiada no espeto, quase botando no prato dele, sem que ele pedisse ou assentisse.

- O Doutor já provou a costelinha de carneiro? - chegava outro, já empurrando o pedaço, quando mal Chico havia se livrado do rapaz da maminha.

- Coraçãozinho tá o ouro, Doutor... - veio um terceiro, esse para acender o estopim.

Furibundo, Chico Roberto pegou o sinalizador redondo posto à sua frente e rodou do verde "aceito, obrigado" pra o vermelho "satisfeito, obrigado". Quando o garçom seguinte chegou, armado com um espeto cheio de toscanas, espantou-se.

- Já Doutor? Houve alguma coisa? Foi alguma coisa o Senhor não gostou, foi? - quis saber.

- Nada não, meu jovem. Mas faça o seguinte: providencie um cafezinho. - pediu Chico Roberto.

- Pr'agora, Doutor? - achou de perguntar o garçom.

Resposta:

- Não, não É pra viagem. Mande embrulhar que eu pego na saída - ordenou Chico.

Rubens Nóbrega
Jornalista

Publicada no Jornal Correio da Paraíba.
Edição 28/03/2010.
continua...

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