sábado, 28 de maio de 2011

Carlos Pereira - Os Cinemas De Jaguaribe (*)


um conto - uma crônica


Dizia-se que João Pessoa, à época, era a cidade do Nordeste que tinha o maior número de cinemas.Na verdade, aqui havia cinemas em todos os bairros no começo dos anos cinquenta. Cruz das Armas tinha o Bela Vista, na praça do mesmo nome e o Glória, na avenida.No Centro, estavam o Plaza, o Rex, o Brasil e o Felipéia - este no começo da Rua da República, ali atrás dos jardins do Palácio da Redenção. O Cine Municipal ainda não existia e na Torre reinava o Metrópole, na confluência da Bento da Gama com a Juarez Távora, enquanto o cine São Pedro ficava na rua São Miguel, pertinho do cemitério.

Jaguaribe, como o bairro mais importante da cidade (depois do Centro), tinha o privilégio de oferecer três cinemas aos seus moradores. O mais antigo era o Cine Jaguaribe, plantado na esquina da Aderbal Piragibe com a Capitão José Pessoa. O São José ficava na Floriano Peixoto, pertinho da Coremas e o Santo Antônio, montado pelos frades do Rosário, na esquina da Vasco da Gama com a 1º de Maio.

E eram três casas exibidoras tão prestigiadas que, às vezes, o lançamento de novos filmes era feito no Centro e em Jaguaribe. Principalmente quando o Santo Antônio foi inaugurado, trazendo como grande novidade o som chamado estrofônico e possantes ventiladores e exaustores.

Tenho gratas e inesquecíveis lembranças desses cinemas na minha infância/adolescência. Por exemplo, do Jaguaribe, o mais popular dos cinemas de João Pessoa, cuja publicidade era feita "ao vivo" por "Imbuzeiro" - um retardado mental que anunciava no bairro o filme do dia num cartaz peito/costas. Ali, eu assisti, em 10 matinês dos domingos, ao incrível seriado "Os tambores de Fu-Manchu", com cada episódio mais fascinante do que o anterior e que me mantinha em suspense durante toda a semana, aguardando ansiosamente a hora de conferir como o mocinho ia se safar de mais uma armadilha...

Do São José, lembro do medo que de mim se apossou ao assistir, um filme de título "O castelo mal-assombrado" ou coisa que o valha, que me fez ir embora antes do final e sair, o coração na boca, arrependido de ter desobedecido a minha mãe que me advertira de não assistir àquele filme de terror explícito.

E do Cine Santo Antônio, além de belas e memoráveis películas, como "E o vento levou", ficou-me na memória um espetáculo de uma manhã de domingo. O cinema estava lotado, principalmente de jovens que de toda a cidade tinham acorrido àquela casa não para ver um filme qualquer. Foram assistir a um show de Cauby Peixoto, a primeira vez que o cantor estava em João Pessoa e que, após o recital, quase não saí inteiro do cinema. Foi preciso a intervenção da polícia para evitar que as mocinhas arrancassem os pedaços do cantor.

São recordações de outros tempos - tempos em que a gente ia ao cinema para ver os filmes, namorar e se enlevar com as películas e com as companhias femininas. E não para comer pipoca, tomar coca-cola e falar (alto) ao telefone celular, desrespeitando os espectadores - como nos dias de hoje.

(*) Dedico esta crônica ao professor, cronista e amigo João Batista de Brito que é quem mais entende de cinema por aqui.

Carlos Pereira
Jornalista, escritor, engenheiro e
professor universitário

Publicada no jornal A União.
Edição 22/08/2009

Nenhum comentário:

Postar um comentário