sexta-feira, 24 de junho de 2011

Onaldo Queiroga - A Velocidade Do Tempo



um conto - uma crônica


Um dia desses, encontrei um amigo que há tempo não via. Porém, tive a nítida impressão de que o nosso último encontro ocorrera no dia anterior. O tempo voa e, como disse o poeta Cazuza, "o tempo não pára".Não sabemos ao certo o que realmente está acontecendo. Porém, existe no ar uma sensação de que tudo ganhou velocidade.

Acordamos, tomamos café e partimos para a labuta. Todavia, num abrir e fechar de olhos, já estamos diante do crepúsculo, anunciando a chegada da noite com a sua escuridão,. E o nosso olhar, fitando uma rede busca, logo o repouso do cansaço de mais um dia.

Mas, não foi só o dia que ganhou incrível velocidade. Mal começa o mês e o carteiro nos aparece trazendo aquelas indesejáveis correspondências do fim do mês.Sim, contas e mais contas: de energia, de telefone, de água, de um cartão de crédito etc.

Como seria bom se essa velocidade do tempo parasse por aí! No entanto, os anos também resolveram correr, entrar no clima da alta velocidade. E, com isso, as pessoas estão cada vez mais carregando a sensação do passar rápido dos anos.

Mal terminamos de usufruir a folia carnavalesca, já estamos degustando os deliciosos chocolates da Páscoa ou mesmo uma canjica, uma pamonha e um pé-de-moleque do período de São João. Quando nos damos conta, como se diz no sertão, o ano já entrou nos denominados "bro". Sem percebermos, o feriado do Sete de Setembro já se foi, como também o de Quinze de Novembro.

E lá estamos nós, sentados em frente à televisão, assistindo à São Silvestre. E, numa reunião de família, passamos a noite de Natal. Em seguida, novamente diante da televisão, conferimos a retrospectiva do ano, assistimos à queima de fogos a iluminar os céus; a luz, então, se apaga e amanhece um novo ano.

Será que o tempo encurtou? Certamente não. Mas o que, na verdade, vem proporcionando essa sensação de encurtamente do tempo? Muitos sinalizam para o fato de que essa sensação teria surgido em decorrência do rápido desenvolvimento dos meios de comunicação de transporte.

É que, no início do século XX, a comunicação de uma localidade para outra era difícil. As notícias chegavam por mensageiros, pelo telégrafo e pelo rádio , os quais, na época, eram peças raras. O transporte desse tempo era restrito ao cavalo, ao trem e a poucos carros. Com isso, a vida caminhava a passos mais tranquilos e lentos.

Hoje, a realidade é outra. Tanto a comunicação como o transporte evoluíram de forma tal que um avião nos leva num único dia para vários destinos.

Concomitantemente, se utilizarmos um notebook, podemos ter acesso a diversos portais da internet e lá comunicarmos com pessoas de vários pontos do mundo. Não há dúvida de que o homem evoluiu materialmente. Todavia, o ter não deve fazer sucumbir o ser, pois é no espírito que repousamos os passos lentos e sábios da paz e do amor.

Onaldo Queiroga
Escritor e Juiz de Direito.

Monólogos do Meu Tempo.
Páginas 56, 57, 58 e 59.

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